Rapidez, diversidade e partilha definem a cultura que consomem os jovens em Portugal. Eles privilegiam a música. Pedem museus grátis. E lamentam não ter mais dinheiro para gastar. Retrato da geração “download”.

Em época de frequências o Espassus, café com uma esplanada ampla à beira de uma piscina no bairro de Carnide, em Lisboa, enche-se de estudantes, muitos deles universitários. Em cima das mesas há portáteis, telemóveis, iPods, cadernos e alguns livros, mas poucos. O cenário repete-se todos os dias. E há até quem fique do pequeno-almoço ao fim da tarde.

Este café, como outros espalhados pelo país, é ao mesmo tempo lugar de estudo e de encontro, ponto de paragem obrigatório para grupos de jovens que dali partem para concertos, sessões de cinema e jogos de futebol.

“Combinamos aqui muitas vezes porque fica perto das nossas casas e toda a gente conhece”, diz Catarina, 20 anos, estudante de Psicologia. Pode ser a primeira paragem de uma noite que só acaba no pequeno-almoço do dia seguinte ou o ponto de partida para umas férias de verão no sul com um festival de música pelo meio e muita praia. “Trazemos os computadores, trocamos música, vamos à Net sacar ‘trailers’ de filmes que havemos de ver no cinema ou em casa de alguém, encontramos amigos do secundário.”

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Catarina nasceu em 1990, no mesmo ano do “Público”, quando o suplemento de Cultura estava longe de se chamar Ípsilon e os avanços tecnológicos eram, comparados com aquilo a que hoje tem acesso um jovem de 20 ou 21 anos, no mínimo tímidos (basta lembrar que o jornal tinha um suplemento chamado “Videodiscos”). Catarina ainda se lembra das cassetes VHS, mas discos de vinil foi coisa que nunca ouviu. “Sei que estão a voltar, mas não conheço ninguém que tenha uma aparelhagem com…” Hesita. “Prato?”, perguntamos. “Sim. Não me lembrava do nome.”

Em 1990 já havia CD, mas o circuito comercial era dominado pelo vinil e era preciso esperar uma eternidade por um álbum lançado no Reino Unido. “Tudo demorava muito a acontecer em 1990”, diz o sociólogo Vítor Sérgio Ferreira, investigador do Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa. “O imediatismo a que hoje está habituado um jovem de 21 anos não tem comparação. A rapidez com que tudo acontece – basta pensar que ao chegar a casa posso ver o filme que estreia hoje nos cinemas americanos no meu computador, sem ter de esperar que uma distribuidora em Portugal o compre – mudou por completo a maneira como vivem, como se relacionam, como se identificam uns aos outros em todas as áreas, incluindo a dos consumos culturais”, explica este coordenador do Observatório Permanente da Juventude, que em 1990 tinha a mesma idade da Catarina que nunca pegou num vinil.

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Para além da tecnologia, o que é que mudou em 20 anos na cultura que consome um jovem de 21 anos? Não é possível responder a esta pergunta se ela começa por “para além da tecnologia”, explica Vítor Sérgio Ferreira, porque foi a própria tecnologia que permitiu diversificar a oferta cultural e democratizar os consumos.

“A cultura jovem dos anos 80, que vivi, estava muito associada a um espaço territorial específico. Hoje os territórios são virtualizados e estão à distância de um clique. Em segundos, estes jovens podem estar rodeados de outros com os mesmos gostos de música ou de cinema em qualquer comunidade da rede. A paisagem territorial tornou-se sonora, visual.”

 

Parceiros estratégicos

Traçar o perfil português de 21 anos a partir dos seus consumos culturais  não é tarefa para um suplemento de um jornal diário. Os dados disponíveis estão dispersos por vários institutos, centros de investigação e empresas, muitas vezes contemplam um intervalo etário que vai dos 15 aos 24 anos e não fazem distinção entre consumos técnicos e de lazer. Mesmo assim, e recorrendo ao trabalho de sociólogos que há anos se dedicam a observar as comunidades juvenis, é possível encontrar pistas de leitura e chegar a algumas conclusões, baseadas na experiência e não apenas nos números.

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A primeira das quais é que a sua relação com o mundo, tirando uma minoria de nove por cento que está “offline” (dados do Observatório da Comunicação de 2010 para o segmento 15-24), é mediada pela tecnologia. A Internet e as suas múltiplas redes e plataformas de produção e circulação de conteúdos têm papel determinante no que os jovens de 21 consomem e partilham. Em segundo lugar vem a ideia de que a música é omnipresente no discurso, independentemente do meio em que se nasceu, do trabalho que se tem ou do que se sonha fazer. E, por último, a confirmação de que os amigos e a família continuam a ser “parceiros estratégicos” – usamos a mesma expressão que António, 22 anos, estudante de Economia, usou para descrever a sua relação com os pais no que toca a cultura, do género “eu escolho o concerto, eles pagam; eu escolho o livro; eles pagam” – nas escolhas culturais.

“Só vou a exposições e museus com os meus pais”, diz Rudolfo, amigo de Catarina, e um ano mais velho. “Pode ser em Portugal ou em viagem. Com os meus amigos vou ao cinema e aos concertos. Ao teatro só vou com a minha namorada e com a minha irmã. Está tudo dividido porque a maioria dos meus amigos nunca entraria numa galeria e ir com os meus pais a um concerto dos meus é coisa que não me passa pela cabeça.”

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Os pais de Rudolfo sempre levaram os filhos a museus e ao cinema, deram-lhes livros para ler, discos a ouvir, fizeram questão que eles os acompanhassem em viagem. Este estudante de Gestão com 21 anos sabe que a sua situação é privilegiada. “Os pais dos meus amigos são mais desprendidos. Tive sorte. Posso discutir música com o meu pai.” A música está entre as preferências de Rudolfo. Se nem sempre o pai “compreende” as suas escolhas, o inverso também é verdadeiro. “A música clássica e a ópera não me interessam, mas o meu pai também gosta de rock e tem curiosidade em ouvir o que vai aparecendo.” Os pais de Rudolfo são professores universitários.

O meio social é fator importante a analisar quando se trata de consumos culturais e é preciso ter em conta que, ao falar-se de jovens, é forçoso considerar uma pluralidade de perfis, diz Jorge Vieira, sociólogo especialista em Media e Comunicação.

“Um jovem de 21 anos, lisboeta, estudante na faculdade, com Internet, com pais professores universitários, terá um consumo cultural bastante diferente de uma jovem mãe também com 21 anos, mas trabalhadora, sem Internet, com o 9.º ano de escolaridade e filha de pais operários em Amarante”, exemplifica este investigador de 30 anos, que faz parte do Observatório da Comunicação – OberCom.

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À mesa de Catarina e Rudolfo e no seu círculo de amigos todos são universitários. António já pensou em “tirar um ano para ir ver o mundo”, mas acabou por abandonar a ideia.

A família não perdeu a sua influência sobre os consumos culturais dos jovens adultos, concorda Vítor Sérgio Ferreira, mas isso não significa que tudo permaneça na mesma: “As relações pai-filho são hoje menos autoritárias, mais negociadas, e a mediação dos amigos e dos colegas é muito mais forte. A família deixou de monopolizar a socialização do gosto, mas ainda é importante.”

Carlos Fortuna, sociólogo e professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, defende, por seu lado, que “a família é claramente uma instância em perda no que toca à influência social e cultural dos jovens”. Para este professor que há anos estuda a cultura urbana e os hábitos dos jovens, o decréscimo da influência familiar pode explicar-se por dois fatores: a importância cada vez maior dos amigos e a alteração do próprio espaço doméstico.

“As casas da classe média são hoje janelas para o mundo, mas hiperindividualizadas. Assistimos a um aumento da área dos apartamentos da classe média e, ao mesmo tempo, a uma compartimentação cada vez maior. É preciso ter um quarto para o filho, outro para a filha. As famílias pouco se encontram, mesmo quando todos estão em casa. E assim se reduzem as hipóteses de influenciar o gosto.”

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Música: uma “exigência social”

Basta passar pelo bar ou pela sala de alunos de uma faculdade e falar com quatro ou cinco estudantes para deixar de lado a ideia de que a Internet – sobretudo as redes sociais como o Facebook, o hi5 ou o Twitter – anulou o convívio direto entre os jovens e que o “download” retirou importância à experiência do “ao vivo”.

Eles continuam a encontrar-se em bares e cafés, a criar a sua geografia da cidade. O próprio contexto urbano é, segundo Carlos Fortuna, uma das principais condicionantes na formação de uma consciência social e cultural, em especial nos jovens até aos 24 anos. “A ideia de que os jovens estão cada vez mais fechados em casa não corresponde à realidade. O seu estilo de vida é absolutamente grupal. E é com esse grupo que salta os muros da escola ou da faculdade, que eles criam o seu circuito na cidade, que é por excelência o seu território de afirmação e de diferenciação. Se pertencem a determinado grupo, passam por aquele bar, ouvem este ou aquele tipo de música, têm sempre o festival X na agenda. Há sempre determinados espaços e ‘gadgets’ ligados ao grupo, à tribo.”

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Tecnologia, escolaridade e urbanização são três dos eixos à volta dos quais se alteraram os consumos culturais dos jovens nos últimos 20 anos, sintetiza este professor de Coimbra e um dos autores de “Projeto e Circunstância. Culturas Urbanas em Portugal” (Afrontamento, 2002).

Os grupos continuam a moldar os seus gostos e apetências, sobretudo na área da música, que é hoje talvez um dos mais importantes fatores de sociabilidade, explica Vítor Sérgio Ferreira. “Ter conhecimentos sobre música é hoje uma exigência social. É importante gostar de uma coisa e não de outra e saber fundamentar as escolhas. E isto só acontece com a música.” E porque o consumo de música é “essencialmente emocional” e “para ser experimentado”, o concerto ao vivo é um dos formatos preferidos.

A tecnologia potencia o desejo de contacto direto, tanto com os amigos como com os artistas. “Já não precisam de um telefone fixo para combinar um concerto, nem sequer do telemóvel. Usam o Facebook e partilham ficheiros do YouTube ou os álbuns de que fizeram ‘download’ para convencerem o grupo de que aquele é o concerto a não perder.”

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Os momentos efémeros – como um concerto dos Arcade Fire ou de Lady Gaga – são altamente valorizados, acrescenta este investigador, para quem estes momentos são também elementos de distinção dentro do grupo (“o acesso é democratizado – todos podem descarregar um vídeo da Gaga – mas nem todos podem pagar o concerto”).

“Ainda é a ideia de Walter Benjamin que prevalece – não é por haver muitas cópias, partilhadas na Net de forma viral, que o original perde importância. É por isso que eles colecionam ‘downloads’ mas, quando o disco ou a banda estão entre os seus preferidos, não abdicam de comprar o CD original.”

 

O ‘download’

António não faz parte dos 53 por cento dos jovens entre os 15 e os 24 anos que visitam museus, segundo o Target Group Index, estudo que em Portugal é conduzido pela Marktest (o último é para o período entre setembro de 2009 e março de 2010). O tempo livre que dedica à cultura e ao entretenimento é passado a ver filmes e a ouvir música. Como? No computador. Vê uns “trailers” uns vídeos no YouTube que lhe mandaram os amigos ou que ele próprio pesquisou e faz “download”. Na sua maioria de forma ilegal. É raro pagar pela música que consome “online”. “Se está disponível e eu posso aceder sem pagar, não vale a pena gastar dinheiro. Às vezes nem sou eu que procuro, mas os meus amigos.”

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A maior parte dos consumos culturais dos jovens desta idade é ilegal, diz Gustavo Cardoso, 41 anos, professor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa) e diretor do OberCom. Aquilo a que acedem parece ser limitado apenas pelas suas capacidades de pesquisa.

Segundo os números do último inquérito Sociedade em Rede (OberCom 2010), mais de metade dos jovens utilizadores entre os 15 e os 24 anos descarregam e ouvem música “online” (54 por cento) e quase metade (48 por cento) afirmou ver ou fazer “download” de filmes na Net. Isto sem esquecer que 28,7 por cento desses jovens utilizadores admitiu usar programas de “Peer to Peer” para partilhar ficheiros. “Como tal”, conclui Jorge Vieira, “o consumo passa em muito pelas redes e a tendência é a de crescimento”.

E a indústria, sobretudo a da música e do cinema, vai ter de adaptar os seus modelos de negócio se quiser ganhar algum dinheiro, sublinha Gustavo Cardoso. “Eles estão disponíveis para pagar alguma coisa, mas não para pagar duas ou três vezes pelo mesmo. Eles pensam ao descarregar uma série: ‘Eu já pago o Meo. Esta série que acabei de tirar da Net vai dar no Meo e, por isso, só estou a antecipar o momento em que a vou ver’.”

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António diz que é mesmo assim. “Se as coisas estão acessíveis – as séries, os filmes, a minha música – seria idiota não as sacar. E se as tenho, seria injusto não as passar a outras pessoas, que se calhar não conseguem fazer o ‘download’.”

O orçamento que têm disponível para gastar em cultura é limitado, lembra Gustavo Cardoso: “Eles compram menos discos ou DVD, mas estão dispostos a pagar para ir a concertos ou ter mais largura de banda e uma Internet mais rápida.”

E o tempo que passam na rede, acrescenta José Soares Neves, investigador do Observatório das Atividades Culturais (OAC), aproxima-os ainda mais da leitura. “Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, há uma associação positiva entre Internet e leitura de livros, ao contrário do que se passa com a televisão. Os que passam mais tempo na Net são os que mais leem [67,6 por cento].” Os que mais leem livros, porque é no escalão dos 15-24 anos (e no de + de 65) que o consumo de jornais e revistas em papel é mais baixo (quando o inquérito Sociedade em Rede foi feito, mais de 55 por cento dos jovens afirmou não ter lido um jornal, físico ou digital, na última semana).

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“Os jovens destas idades são, sem dúvida, os portugueses que mais leem”, garante Soares Neves, baseando-se no Inquérito à Leitura de 2006/2007, do OAC, que não distingue as leituras técnicas (as que são feitas para uma cadeira da faculdade, por exemplo) das de lazer (ficção). Mas são também os que mais ouvem música, sem excluir o cinema, o teatro e até a dança (esta última mais raramente). “São autênticos omnívoros culturais”, diz este sociólogo de 52 anos. “São ecléticos e cumulativos. E se, assim, parecem pouco coerentes nos seus gostos isso é uma marca da contemporaneidade”, acrescenta Vítor Sérgio Ferreira, do Observatório da Juventude. “É difícil ter uma perspetiva histórica sem ser impressionista, porque os dados são muito escassos. Mas creio que a cultura ganhou público em praticamente todas as áreas desde 1990. E hoje já não encontramos discursos tão dramatizados como há 20 anos atrás sobre a falta de público jovem no teatro ou no cinema.”

Para estes jovens, a rapidez é determinante, assim como a diversidade de escolhas, a liberdade do acesso, o contacto direto com os amigos, a experiência do concerto.

A vida deles, diz Carlos Fortuna, é um somatório de “agoras”, em que o tempo é permanentemente interrompido pelo “email”, os SMS e o Facebook. Mas é pela plataforma digital que passa grande parte dos seus consumos culturais. “A cultura está-lhes no ADN, marca os seus dias, os seus territórios, no computador e na cidade.”

 

Lucinda Canelas
In Público (Ípsilon), 4.3.2011
10.03.11