Com que palavras apalavramos o conceito e a prática da comunicação?

Com termos como anúncio, informação, pregação, arenga, transmissão, …
E que significado de comunicação está contido neste modo de a enunciar?
Vias de sentido único, mensagens unidireccionais, fluxos predominantes de A para B.
Onde é que esse modo hegemónico de comunicar prevalece?
Na escola, na igreja, nos media, na política e em muitos outros espaços institucionais.
Há outros modos e modelos de comunicar?
Certamente que sim: a comunicação assente no diálogo, na escuta, na reciprocidade de papeis, na troca de pontos de vista, nos gestos partilhados…
Serão os dois modelos antagónicos ou mutuamente exclusivos?
Longe disso.  Nenhum deles pode prescindir do outro, ainda que possamos, de acordo com a inércia, a vontade e o contexto, acentuar mais um do que outro. Mas a comunicação humana carece tanto da informação que capacita  e abre horizontes quanto da relação que se estabelece e refaz no acontecer da própria comunicação. Não é, portanto, mero problema de linguagem – mais acessível ou mais hermética, mais clássica ou mais moderna – que está em jogo, mas um problema de atitude.
Estas reflexões surgem a partir de um evento que acaba de ocorrer em Roma, por iniciativa do Conselho Pontifício para a Cultura com o tema “Cultura da comunicação e novas linguagens” e que se apresentou com algumas novidades dignas de nota. Realizou a sessão de abertura no Capitólio, fora do Vaticano; juntou gente muito diversa, das artes, do pensamento, das letras e das indústrias criativas; enfim, quis olhar para um problema crucial da contemporaneidade – o da (in)comunicação, com olhos multidisciplinares, incluindo, naturalmente, o religioso.
A avaliar pelo que, a propósito, disseram os responsáveis máximos do Vaticano, a tónica voltou a ser colocada na forma da linguagem (carecendo de aggiornamento na Igreja) e nos meios para a veicular. “A necessidade de encontrar uma linguagem verdadeiramente mais capaz de sintonizar com a cultura e com o homem de hoje é imprescindível”, declarou D. Gianfranco Ravasi, não sem advertir que “há palavras que devem ser conservadas”.
Eu não me preocuparia tanto com a efectividade da linguagem, a novidade das palavras e dos media, ainda que reconheça residir ai uma parte do problema. Preocupar-me-ia, sim, com as mediações e com o cultivo de uma atitude de escuta, em que se possam intercambiar mensagens que circulem em múltiplas direcções e não em sentido único.
[Manuel Pinto. Texto publicado no diário digital Página 1, da Renascença, em 15.11.2010]