10 questões que deve conferir

As respostas a estas 10 perguntas deverão orientar o professor na adopção de tecnologias digitais na sala de aula. Destinam-se em particular aos “retardatários”, àqueles que se têm coibido em grande medida de aderir à tecnologia digital na sala de aula. As orientações que se seguem para cada pergunta são uma abordagem ponderada à tecnologia digital, o que não quer dizer que os professores devam automaticamente adoptar a última novidade por receio de “perderem o comboio”.
A tecnologia digital não ajudará na educação – e, de facto, pode ter consequências nefastas e indesejáveis – se não for utilizada com sensatez. Em contextos educacionais, tal sensatez deriva das preocupações pedagógicas e das práticas e filosofias dos educadores que usam essas tecnologias.
A tecnologia digital deve ser analisada e avaliada como parte do “ecossistema de informação” da sala de aula, que há muito alberga tecnologias de todo o tipo.

1. Que impacto tem a tecnologia na ergonomia da sala de aula?
O arranjo espacial das pessoas e das tecnologias é por vezes uma declaração explícita da prática pedagógica. Num espaço de aula tradicional, há filas de secretárias viradas para um estrado à frente. Tal organização física favorece uma pedagogia baseada na prelecção, em que o professor expõe para uma audiência de estudantes que escutam e absorvem a informação. Uma sala de aula com cadeiras facilmente amovíveis, que podem ser organizadas em círculo ou distribuídas pela sala, é adaptável quer a debates gerais, quer a trabalho em pequenos grupos. Do mesmo modo, a organização física das tecnologias na sala deve reflectir as estratégias pedagógicas do professor.
A ergonomia das opções tecnológicas deve coincidir o mais possível com as intenções pedagógicas do professor. Qualquer tecnologia que quebre desnecessariamente este arranjo ou estilo pedagógico do professor não deve ser adoptada

2. Como é que a tecnologia expande as dimensões do espaço da sala de aula?
A instrução e ensino também ocorrem fora da sala de aula. A interacção de aluno e professor pode ocorrer durante a hora de almoço, em visitas de estudo e outras ocasiões; o professor aconselha exposições, concertos, publicações e outras actividades fora da sala.
Paralelamente, o conjunto de professores – mesmo os que não utilizam tecnologia na sala de aula – usa instrumentos digitais, por exemplo, para produzir testes, actividades e outros materiais, ou para calcular classificações. Todas estas actividades são extensões das actividades da sala de aula.
As tecnologias digitais, muitas vezes, expandem legitimamente o ecossistema informativo da sala de aula. Muitos estudantes definem a Internet como biblioteca ou arquivo. A investigação sugere que os estudantes usam frequentemente a Internet como “grupo de trabalho virtual”. A sala de chat em alguns estabelecimentos e o e-mail tem vindo a ser usado cada vez mais nos contactos com pais e alunos.
“Tecnologia na sala de aula” não se refere exclusivamente às ferramentas que ocupam fisicamente o espaço tradicional da aula. Aliás, a tecnologia pode e deve ser usada para expandir eficazmente esse espaço.

3. Porque é que esta tecnologia está aqui?
Uma queixa comum ao mundo empresarial, a organizações e instituições de ensino prende-se com o seguinte: o aparecimento súbito de tecnologias novas ou actualizadas na secretária do utilizador, com ou sem o seu consentimento ou participação – em geral, como resultado de uma decisão da direcção, do departamento de informática ou de outra instância superior.
É indispensável a comunicação com os grupos que vão usar a tecnologia, até porque cada um pode ter razões diferentes e concorrenciais para a sua utilização e mesmo querer usá-la para objectivos opostos. Há dados que indicam que os estudantes usam a Internet de formas que os professores nem concebem, em particular os de anos mais avançados, como em sessões de estudo virtual ou “armazenando” o trabalho enquanto vão de casa para a escola. Muitos deles desejariam que os professores fossem capazes de usar a tecnologia na sala de aula da mesma forma que eles o fazem em casa.
Uma auditoria para a introdução de tecnologia deverá perguntar aos vários grupos envolvidos:
Qual é a finalidade básica desta tecnologia?
Como é que esta finalidade foi debatida e acordada?
Como é que esta tecnologia é usada na realidade e como é que esse uso corresponde à finalidade?
Quais são os benefícios e os riscos do uso desta tecnologia?
Não tem lógica económica adquirir-se novas ferramentas se os professores não as vão usar (ou se as usam escassamente). Nem é prático alguns utilizadores precursores requererem tais ferramentas para servirem as suas necessidades particulares. Em vez disso, as escolhas de tecnologia devem basear-se num amplo consenso entre as partes envolvidas.

4. A tecnologia acrescenta algum tipo de valor pedagógico demonstrável?
Substituir uma tecnologia antiga por uma nova apenas porque é nova e digital já não é argumento suficiente – se é que alguma vez o foi – para escolas que se debatem com problemas orçamentais. Em vez disso, a proposta de adopção tem de ser capaz de definir uma vantagem pedagógica legítima.
Por exemplo, a utilização que há muito é feita do projector de transparências tem valor pedagógico, uma vez que exibe material visual aos estudantes que podem desta forma vê-lo e pensar sobre ele. Não sendo quase nunca possível mostrar as imagens originais, os alunos têm de ver reproduções. Ora as imagens digitalizadas mostradas em PowerPoint ou num site Web podem ser de alta resolução, muito mais elevada que as tradicionais transparências. Substituir métodos de baixa resolução por um computador e projector não é apenas um “upgrade” técnico, mas também uma escolha pedagógica.
É perfeitamente aceitável não usar uma nova tecnologia quando a antiga continua a funcionar bem. O debate cara-a-cara é uma técnica pedagógica excelente, particularmente útil para discernir expressões faciais e outras pistas não verbais.
Podemos argumentar que a participação em grupos de discussão e chats online é um lugar-comum entre os alunos e que por isso deveria ser incorporado como recurso para a sala de aula. Contudo, a ubiquidade de uma tecnologia é um argumento insuficiente para a sua inclusão na sala de aula: os telefones são uma tecnologia amplamente usada, mas isso não significa que os professores devam incorporá-los na sua leccionação.
A pedagogia, e não a tecnologia, devem conduzir o processo de adopção.

5. A tecnologia encoraja uma pedagogia ligada à realidade?
Autêntica pedagogia significa que as actividades cujo envolvimento é requerido pelos professores aos seus alunos são semelhantes às actividades levadas a cabo na prática por especialistas e profissionais. A tecnologia educacional eficaz é autêntica e adequada ao quando facilita actividades autênticas – quando os estudantes usam as ferramentas do mesmo modo que os profissionais.
As ferramentas digitais podem por vezes servir fins autênticos, ligados à realidade. Por exemplo, numa aula de História, pode-se pedir aos alunos que acedam a colecções online de fontes originais (bibliotecas, museus, etc.) com o fim de analisarem documentos e elaborarem trabalhos escritos. Aceder a tais fontes e analisá-las é uma actividade em que qualquer historiador se empenha, e poder ter acesso digital a tais registos é uma actividade “autêntica”para alunos de História.

6. A tecnologia promove uma educação ampliada?
Os utilizadores de tecnologia usam-na com demasiada frequência para se separarem das outras pessoas e do mundo real circundante. Estão no nosso quotidiano os adolescentes com headphones ou auriculares a ouvir música, os condutores distraídos falando ao telemóvel ou a gente dos negócios e das empresas com os seus portáteis em transportes e restaurantes, alheados do que os rodeia. Contrariando esta ideia, investigadores começaram recentemente a explorar a ideia da “realidade ampliada”, na qual os utilizadores da tecnologia a empregam para se empenharem mais no mundo físico que os rodeia e interagirem com outras pessoas. A nossa consciência do mundo real seria ampliada pela informação trazida até nós pelas tecnologias móveis.
A realidade ampliada serve como metáfora para a tecnologia na educação: a sala de aula deve ser vista como uma mistura de elementos virtuais e elementos físicos reais. Uma experiência totalmente virtual deixa de fora uma grande fatia com enorme valor na educação. Apesar de a educação virtual estar para ficar e de preencher uma função vital para determinados nichos, a interacção presencial e cara-a-cara nas salas de aula permanecerá certamente como norma na educação.
As aulas híbridas (aquelas que combinam a sala de aula com as experiências online) ou as salas de aula tradicionais ampliadas pela tecnologia digital deverão reflectir um equilíbrio entre o mundo físico das pessoas, o meio ambiente natural e o mundo virtual da valiosa informação digital. Numa sala de aula saudável, o virtual complementa o real.

7. Os professores irão usar a tecnologia para ajudar na aquisição de conhecimento, não apenas de informação?
Conhecimento é diferente de informação e não há dúvida que as tecnologias digitais são capazes de distribuir informação. Já conhecimento está geralmente associado a um ser humano específico, é bastante difícil de empacotar e transportar e é indissociável da apreciação que o sujeito tem do significado da informação. Duas pessoas podem ter acesso à mesma informação mas as diferenças nos seus níveis de conhecimento moldam a forma como a usam e interpretam. O que significa que apenas os profissionais de certa disciplina são capazes de usar a tecnologia para ensinar as competências e os hábitos de pensar da sua especialidade.
Retirar os seres humanos da sala de aula – deixando a tecnologia submergir o espaço – é receita para um ecossistema de informação pouco saudável. Mesmo na era digital, as bibliotecas continuam a exigir bibliotecários, pessoas sabedoras que orientam os utilizadores no labirinto da informação. Do mesmo modo, os estudantes continuaram a precisar de professores – pessoas competentes na transmissão de conhecimento. Os estudantes são perfeitamente capazes de aceder a informação. O papel do professor é de os ensinar a construir conhecimentos a partir dessa informação. Transmitir informação ao aluno é instrução, ajudá-los a desenvolver conhecimento é educação e a tecnologia é uma mera ferramenta capaz de apoiar ambas as funções.

8. A tecnologia apela a diferentes estilos de aprendizagem, permitindo aos alunos produzir (e não apenas consumir ou reproduzir) conhecimento e informação?
Há 20 anos que Howard Gardner nos tornou conscientes de que a inteligência humana não é mensurável através de uma quantidade; em vez disso, cada ser humano é um conjunto de múltiplas inteligências, cada uma delas com variações individuais. Desde aí que teóricos e pedagogos têm defendido a que os professores devem apelar a uma gama alargada de inteligências: alguns estudantes são mais visuais na aprendizagem, outros preferem experiências mais tácteis, outros precisam mais da oralidade, e por aí fora. Ou seja, os professores deveriam reconhecer a “diversidade cognitiva”.
Pelas tecnologias digitais acedemos a sons, imagens, filmes, cores e texto. Daí, parecerem as ferramentas ideais para essa sala de aula diversificada cognitivamente. Contudo, isto é apenas um lado da questão. Os defensores das inteligências múltiplas salientam que um bom professor deverá apresentar múltiplos tipos de informação na aula para ir ao encontro de todos os seus alunos. Por outro lado, os professores também devem ter em conta que a tecnologia permite desempenhos diversos por parte dos alunos, isto é, que não faz sentido fornecer-lhes com uma panóplia de tipos de informação para que eles produzam um tipo apenas de trabalho: um teste ou um trabalho escrito.

9. A tecnologia promove a atuação ou simplesmente o entretenimento?
Dizer que a aprendizagem deve ser ativa e não passiva tornou-se um lugar-comum entre os educadores. Mas a aprendizagem ativa não é apenas por os estudantes a fazer alguma coisa em vez de assistir a uma exposição oral. Embora pareça que eles estão “activos”, os estudantes que simplesmente estão a olhar para informação gráfica interessante ou a ouvir som digitalizado, apesar de estarem entretidos, não estão envolvidos em nenhuma pedagogia ativa. Mas se forem eles a gerar essa informação, já teremos um exemplo de sala de aula activa promovida pela tecnologia.
As tecnologias digitais são muitas vezes vistas como benéficas para a educação porque “tornam a aprendizagem divertida”, e já se ouve este argumento também para os níveis universitários. O “edutainment” é frequentemente defendido como a maior vantagem da tecnologia na sala de aula.
É fundamental distinguir entretenimento de actuação. O entretenimento é uma experiência passiva em grande medida. Por isso, ver um vídeo, embora superficialmente pareça activo, só o será se o professor pedir aos alunos para desenvolverem tipo de actividade cognitiva sobre ele. Caso contrário. A tecnologia deve ser usada na educação para encorajar a criatividade e a experimentação.
Um bom exemplo disso é a aprendizagem baseada no jogo mediado pela tecnologia. Nos jogos baseados em simulações, os estudantes são chamados a tomar decisões do mundo real num ambiente mais seguro. Estas simulações são autênticas na medida em que espelham as actividades da disciplina em questão.

10. A tecnologia serve para alguma coisa?
Como sabemos que o resultado do uso da tecnologia por parte de um estudante serve para alguma coisa?
Os estudantes não trabalham no vácuo e, excepto em algumas circunstâncias particulares, a simples demonstração de mestria técnica numa tecnologia não é suficiente. O uso da tecnologia tem de ser avaliado no contexto de cada disciplina, cada uma deve estabelecer os seus próprios critérios.
E porque um “bom” uso da tecnologia resulta do contexto disciplinar, não da mestria técnica, se os professores acharem que é difícil os alunos produzirem “bom” trabalho com determinada tecnologia, então esta não deve ser adoptada.

(tradução adaptada do artigo de David J. Staley, Adopting Digital Technologies in the Classroom: 10 Assessment Questions)

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